terça-feira, 3 de julho de 2012

PAROLE, PAROLE



Voltei mais uma vez àquela casa. Relutante, como sempre. Minha vó habitava ali e sua extrema sabedoria me inibia e me afastava para longe. Mas desta vez eu definitivamente precisava ouvir seus conselhos. Lembrava-me das horas vazias, intermináveis que fitando o teto da humilde casa, vigas descascadas à mostra, destino oculto por detrás de uma penumbra difusa, esperei o futuro se apresentar e me recolher da insignificância involuntária.
Voltei, no entanto, para tentar apaziguar meu coração aflito. Ela como sempre, me fitou serena, seus olhos tão cheios de amor que me fuzilavam acusando minha incapacidade de retribuição.
— Vó?
— Meu filho, você está tão magro — começou na eterna cantilena de todas as avós do mundo.
— Vó, o que eu faço com as palavras que digo e depois me arrependo de ter dito?
— Meu filho, palavras são como pedras: se planejadas, colocadas uma a uma, com capricho em cima de outra, constroem-se com elas pontes, estradas, cidades, castelos. No entanto, se soltas, disparadas aleatoriamente, podem matar, mesmo àqueles mais fortes, como David fez com Golias. São armas letais.
— Vó....mas as tais pedras atiradas a esmo, sem pontaria, não podem ser recolhidas e com elas recomeçarmos nosso castelo?
— Depende, meu filho. Se você as recolher cuidadosamente, com muito amor e do outro lado, quem foi atingido também tiver este mesmo amor, juntos podem sim, construir o que quiserem. Principalmente pontes.
Me despedi e não aceitei o pão sempre quentinho e o leite que me ofereceu. Não queria que visse, que pela primeira vez, meus olhos estavam úmidos. Aquela velhinha.....


Cezar F. “mais uma crônica bestinha de um cotidiano aleatório....”  junho de algum ano aí.

terça-feira, 5 de junho de 2012

A FOTO



A FOTO

O click veio ao mirar-se no espelho naquela manhã de maio. O espelho sempre estivera ali, cumprindo fielmente sua função de espelhar o rosto e auxiliar no barbear, mas naquele dia em particular, justamente no dia do seu qüinquagésimo - primeiro aniversario, deu-se a revelação. Nada mais seria como antes, e como poderia, afinal, se um despertar desses ocorre, você precisa reagir mudar, tentar, ao menos.
Até aquele dia, Mário era feliz. Muito feliz. Casara-se (por amor, paixão e um descuido reprodutivo) com Ângela, sua paixão de adolescência. Tiveram quatro filhos, três rapazes e uma linda menina, a caçula, Nina. Fizera um concurso publico, sepultando talvez os sonhos de um destino grandioso, mas a segurança proporcionada por um salário e os benefícios que cresciam com o tempo, compensavam as eventuais recaídas de arrependimento. Com o tempo e a nevoa que este traz sobre situações e sonhos do passado, tudo ficara bem. Bem até demais.
A mudança foi brutal, chocante. Era difícil definir de onde partira o ponto de ignição, mas sabia que agora, a partir deste exato momento, nada mais seria como antes. Impossível definir com precisão o motivo de tanto desconforto, mas havia um comichão dentro de si e sabia que teria que fazer algo. Vestiu-se, após barbear-se, alias como fazia todos os dias. Desceu as escadas para o andar inferior e a casa lhe pareceu estranha, como se a visse pela primeira vez. Mal respondeu ao bom dia da empregada que cruzou com ele carregando um fardo de roupas passadas e ao chegar à copa, para o café da manhã de todos os dias, avistou quatro estranhos, que pouca atenção lhe deram.
- Vou dizer uma coisa importante e quero que todos me ouçam – falou em uma voz que reconheceu não usar havia muito tempo, tão autoritária e solene lhe soou.
Mesmo sem muita pressa, Ângela, alguns quilos a mais e a beleza ainda evidente, apesar dos cabelos tingidos que ele detestava, e os três mais velhos, Mario Filho (nada original, mas cedera, sempre cedera às opiniões de Ângela), Paulo e Ricardo o fitaram com uma expressão mixta.
- Vocês são minha família e eu tenho vivido por vocês todos esses anos. Amo a todos e não me arrependo de nada, mas a partir de hoje, e caso não se recordem, hoje é o meu aniversario, as coisas vão mudar por aqui.
Palavras sobrepostas de congratulações, os filhos levantando para abraça-lo (realmente ninguém se lembrava do aniversário do velho), Ângela meio contrariada, pois planejara um jantar surpresa e mesmo ele, jamais se recordava desta data, foram interrompidas com um gesto.
- Parem. Quero que levem isto a sério. Isto é sério!
Os olhares meio debochados dos três filhos o animaram, ao contrario do que poderia se supor.
- Vêm? É disto que estou falando: vocês não me levam a sério, estão tão acostumados em suas boas vidas de burgueses, suas existências medíocres e “babacas” que não percebem o egoísmo que praticam!
Os termos que usava no dia a dia jamais chegariam perto  de tamanha vulgaridade. Isso fez com que os filhos, principalmente, percebessem que havia algo de anormal naquele dia. Voltaram a sentar-se e quietos, esperavam por maiores explicações. Ângela tentou abraça-lo, mas foi afastada sem muita suavidade, o que a magoou e fez com que recuasse e sentasse ao lado dos filhos.
O homem de pé, no meio da copa, a mesa posta, os filhos e a mulher o olhando atônitos, era a cena que tínhamos. De repente, veio um branco. Mario olhou a todos, fez um gesto de desistência e disse:
- Bahh.....do que adianta, vocês jamais entenderiam, isso não tem importância.
Sentiu o alivio geral e os sorrisos tímidos voltaram a enfeitar os quatro rostos incrivelmente parecidos, sugerindo que sua contribuição à genética da prole tenha sido um tanto secundária. Ninguém perguntou nada, viraram-se em suas respectivas cadeiras e voltaram a comer. Aquilo o desanimou ainda mais, mas estava decidido. Iria mudar e a mudança já começara, só que pelo lugar errado.
Despediu-se de todos, após receber novamente os votos de felicidades, apanhou seu paletó e dirigiu-se a garagem. Ângela, sua bela e estranha esposa, a quem pensava conhecer tão bem e agora percebia que viver junto de uma pessoa, dormir, e acordar ao seu lado por bons vinte e cinco anos, não garantiam intimidade, o seguiu. Chegando á garagem que ficava sob o belo sobrado, ela lhe disse:
- Querido, você está bem mesmo? Por que não tira o dia de folga? Você trabalha tanto, precisa descansar um pouco, cuidar mais de sua saúde.
Ela jamais compreenderia. Olhou em volta, a garagem super lotada, com quatro carros espremidos entre motos, Jet ski, e outras caras quinquilharias que deixaram de ser favorecidas pelos filhos. Balançou a cabeça e entrou no seu carro, por sinal o mais modesto de todos.

Ao chegar ao trabalho, sua secretaria, dona Simone, uma simpática senhora que já o assessorava há anos, lhe deu os parabéns. Os subordinados haviam preparado uma pequena comemoração com bolo e doces, o que ele suportou estoicamente. Estava confuso e em sua cabeça ainda buscava as razões para a brusca mudança de pensamento, que tivera esta manhã. Até ontem a noite era um homem, feliz na medida em que se pode ser feliz com uma realidade baseada em posses, e sem grandes questionamentos. Agora sabia que jamais seria o mesmo e vasculhava sua mente para o ponto que havia provocado aquela mudança.
A foto! Sim, tinha que ser aquela foto, mas onde estaria ela? Talvez o ângulo com que se olhara no espelho o tenha remetido a uma lembrança trancada há muitos anos dentro de sua mente. Sim, era aquilo! Chamou dona Simone e alegou não estar se sentindo bem, dizendo que voltaria para casa e se melhorasse, a tarde voltaria. Sentou-se no carro impaciente e o transito que sempre lhe  irritara estava particularmente lento naquele meio de manhã. Ansioso, procurou vias alternativas e em menos de meia hora estava novamente em casa. Entrou pela garagem, tirou o paletó e dirigiu-se aos fundos da imensa garagem subterrânea de sua bela casa. Começou pelas caixas maiores, aspiradores de pós, brinquedos das crianças, lembranças de outra vida, mais modesta. Ouviu passos na escada e Ângela, espantada em vê-lo novamente ali, demandava uma explicação.
- Estou procurando uma caixa de fotos antigas, as que eu trouxe da casa de mamãe, lembra?
- Meu bem, as fotos estão dentro daquelas malas enormes que compramos naquela viagem à Disney, lembra? Vou te ajudar.
-Não precisa. Eu me viro, prefiro ficar sozinho, se não se importa.
Ângela olhou-o com enorme estranheza, pois certamente seu Mario não era assim, mas resignou-se e voltou a subir para o andar superior, deixando-o entre suas muitas recordações provocadas pelos enormes álbuns de fotos de sua infância e adolescência.
Fotos e mais fotos sucediam-se diante de suas retinas, mas ele sabia qual buscava. Demorou outra boa meia hora até que, finalmente, encontrou-a. Sim, não havia dúvidas, era aquela foto que buscava e sim, reconhecia o mesmo ângulo que o espelho lhe devolvera. O mesmo rosto forte, as sobrancelhas espessas e claras por sobre os olhos de um azul esverdeado que fizera muito sucesso nos idos da década de sessenta, quando o mundo ainda acreditava. Sentou-se a um canto, sem largar a foto e começou a chorar. Baixinho e quase silenciosamente a principio, mas num crescendo não mais conseguia segurar as lagrimas e o choro tornou-se convulsivo. Isso durou alguns minutos e agradeceu pela discrição da esposa que o deixara em paz.
Um filme passou pela sua cabeça e pode ver toda sua infância, seus amigos, seus sonhos e tudo parecia ter sido engolido por uma avalanche de coisas sem importância. Um emprego sem ideais, um dinheiro que nunca bastava, um consumismo desenfreado e sem propósito, mas aquela foto, aquele olhar de um jovem de doze anos lhe trouxeram novamente à razão. Sim, foram os olhos, grandes, sonhadores, cheios de esperança que tinha aos doze anos, que acusadoramente o condenavam agora, quase quarenta anos depois, pelo que havia se tornado. Aquele garoto, segurando-se num tronco de arvore, com shorts curtos e camisa colorida, um kichute velho nos pés e o sorriso mais límpido que jamais tivera, impoluto, agora exigiam que ele voltasse atrás.
Mergulhou num mar de si mesmo e resgatou os sonhos do garoto de doze anos. As travessuras, as dificuldades financeiras de sua família, os ideais. Sabia que mudara e agradecia por isso.
Levantou-se e subiu para a casa. Ângela, interrogação aflita no olhar, apenas o seguiu, silenciosamente. Despiu-se ao chegar ao quarto, tirando primeiro a gravata, símbolo de uma importância que sabia não ter. Sentou-se na cama e olhou para o vazio. Voltou ao banheiro e novamente, o espelho lhe devolveu aquele olhar. Pegou a foto, olhou a confusa e quase desesperada esposa, mirou à sua volta. Pediu para ficar sozinho. Ela saiu silenciosamente do quarto. Ele chorou. Dormiu. Despertou e dirigiu-se ao banheiro, com a foto numa das mãos. Abriu uma gaveta, onde sabia que Ângela escondia um pequeno isqueiro. Segurou-o firme e a chama lhe trouxe outras sensações conflitantes. Ergueu a foto e dirigiu a chama para a borda inferior. Segurou-a, enquanto queimava, pelo tempo que pôde. Soltou o pedacinho de papel queimando dentro da cuba da pia e observou as cinzas. As cinzas da foto e as cinzas do que fora.
Decidiu seguir sua vida da forma que estava. Muito tarde para olhares acusativos. As cinzas queimam e o coração cicatriza. Pelo menos, é o que Mario espera.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

MITOS E VERDADES

                                         

                                        Mitos e verdades


A boca seca nem importava mais. Os lábios rachados e partidos pela saraivada de socos pareciam bifes de fígado e o cheiro de sangue invadia suas narinas, também machucadas. Tentou fechar os olhos e transportar-se para longe dali, tentou mesmo levitar daquele pobre corpo ferido, despedaçado e muito dolorido. Impossível, pois a cada nova pancada as dores se renovavam e as luzes teimavam em piscar em seu cérebro, como um imenso enfeite de árvore de natal. Já não podia abrir os olhos, pois as pálpebras feridas haviam inchado, tampando toda a visão. Estava com as pernas e os braços quebrados provavelmente, pois apesar de sentir muita dor, havia uma sensação de amortecimento, não podendo movê-los.
Seu treinamento nas selvas e nas colinas de Cuba deveria  preparado-lo para isto, mas a coisa real era bem mais impactante do que poderia imaginar durante o treinamento para guerrilheiro. Nem as maiores provações a que fora submetido pelo temível sargento Gonzáles, íntimo diziam, do próprio Comandante Castro, passava perto em intensidade do momento presente. Até sua captura, desprevenido, totalmente a mercê de seus algozes, lhe parecera uma coisa patética. Tanto preparo, tanto investimento para ser pego justamente no momento em que ia visitar uma velha igreja para orar. Talvez Deus estivesse zangado com ele, pois tentara negar sua crença por diversas vezes, e mesmo que da boca para fora afirmara repetidamente não crer em nada, além da “doutrina.” Estava ciente que com sua formação de sacerdote, os anos de seminário, e principalmente, a fé de sua velha mãe, inabalável e contagiante, sempre haveria um católico por detrás daquele militante comunista.
O Brasil passava por diversas transformações naquele final de década de sessenta do século XX. Os militares haviam tomado o poder e sistematicamente vinham destruindo as resistências, armadas ou não. Grupos paramilitares rebeldes se embrenhavam pelas matas do Araguaia em busca de um reagrupamento, mas era em vão, pois as forças do Exército eram muito mais poderosas e estavam em todos os lugares. Afonso, nosso sacerdote, vinha de um período no exterior e com seu treinamento recém-adquirido fora designado para treinar alguns militantes na resistência armada. Durante meses as rotinas foram enfadonhas e previsíveis, na selva, no calor infernal dos cafundós do país. Quando recebeu ordem para apresentar-se em São Paulo, pois lhe seria dada outra missão, acabou capturado da forma mais prosaica possível, dentro de uma igreja, enquanto se confessava, e não ofereceu resistência alguma, apesar de estar fortemente armado. Não poderia resistir, não dentro da casa de Deus.
No momento em que o alcançamos, sendo duramente torturado, pouco sabia dos detalhes da operação para a qual o haviam escalado. Aliás, nada sabia, além de um nome e um número de telefone. Seus torturadores o interrogavam à velha maneira, ou seja, primeiro batiam muito para quebrar seu espírito, para depois fazer as perguntas. Esse era seu temor, pois se estava apanhando tanto assim sem perguntarem qualquer coisa, quando ele negasse saber algo, a sova seria muito mais pesada. E apesar de todo o seu treinamento militar, e principalmente sua formação como sacerdote, estava perdendo as forças, pois a dor era muito intensa..
Nesse momento, entre as névoas que cobriam seu cérebro, ouviu uma porta abrir-se e as pancadas cessaram. Alguém lhe jogou um balde de água na cara e o levantaram do chão e espetaram seu corpo desconjuntado numa cadeira. Tentou abrir os olhos, mas a dor o dissuadiu. Uma voz forte, mais parecendo um rugido, com forte sotaque nordestino lhe dirigiu palavra
— Pois bem senhor padre Afonso. Finalmente o capturamos. Um peixe grande, até que enfim,  certamente terá muitas histórias para nos contar.
Um frio percorreu-lhe a espinha, pois se era realmente padre e seu nome conferia com Afonso, sabia que de peixe grande nada tinha, muito menos o sobrenome, Sardinha. A ironia naquele momento lhe pareceu cruel e fora de propósito.
— Pois bem, padre. Estamos esperando que comece a cantar e a cantar afinadinho. Queremos todos os detalhes da operação Ponte Nova, tudo.
Afonso não tinha a menor idéia do que estavam falando, mas seu treinamento lhe dizia que tinha que ganhar tempo. Se negasse peremptoriamente não ter conhecimento algum sobre a tal operação, seria liquidado ali mesmo, pois não teria mais utilidade.
— Eu preciso me recuperar. Preciso ajustar meus pensamentos. Preciso fazer alguns contatos, pois não tenho todos os detalhes.
Aquilo surpreendeu o experimentado Coronel Gomes, que esperava um pouco mais de resistência de seu ilustre prisioneiro. Mesmo assim, resolveu ceder e ordenou que o levassem dali e lhe dessem um bom banho e algo para comer. Tinha paciência e tinha tempo, combinação favorável para quem tem objetivos concretos e sabe ser o senhor da situação.

Longe dali, numa chácara no interior de Minas Gerais, homens nervosos andavam em círculos. O mais alto deles, Roberto Pavese, um italiano há muito radicado no Brasil, era seu líder inconteste. Seu lugar-tenente era João Guimarães, um cearense de Sobral, ex-militar e calejado em operações de combate a guerrilhas. Havia mudado de lado quando percebeu serem incompatíveis seus ideais políticos e os do governo que tomara o poder a força de seu ídolo João Goulart. Estavam muito preocupados com as notícias que vinham de São Paulo. A prisão do padre Afonso fora um duro golpe nos planos imediatos do grupo. Poucos o conheciam pessoalmente, mas sabiam tratar-se de qualificado membro da organização e temiam, caso falasse, que colocasse a segurança de todos em risco extremo. Alguns dos presentes eram favoráveis a uma tentativa de resgate, idéia que foi prontamente rechaçada por Roberto. Num dado momento, todos pareciam falar ao mesmo tempo e não se compreendia nada. Roberto bateu seu punho direito no tampo da mesa em que se reuniam e subitamente todos se calaram. Sabiam respeitar seu líder e o desespero não iria levá-los a lugar nenhum.
— Tenham calma, disse Roberto, puxando muito o “l” como fazem os italianos normalmente. Aspeta que io vou a São Paulo saber direitinho o que acontece com nosso padre.
A reunião foi encerrada e aqueles homens muito diferentes entre si, cujo único ponto de tangência era a “causa”, dispersaram-se rápida e silenciosamente. Permaneceram no cômodo apenas Roberto e seu fiel escudeiro, João Guimarães.

Em São Paulo, o Coronel Gomes havia resolvido mudar de tática. Conversava a sós com padre Afonso e era quase amável. Este, razoavelmente recuperado da enorme surra que tomara na véspera, parecia conformado com sua condição e sabia das nuances do processo a que estava sendo submetido. Sua verdadeira preocupação era o que seria feito dele, após seus captores descobrirem que ele efetivamente não tinha informações importantes  e era, portanto, descartável.
De cada lado da pequena mesa que separava os dois homens, tão distintos em seus objetivos, tão diferentes em suas respectivas personalidades, havia tensão. Para o  coronel, obter informações daquele prisioneiro em particular – peixe grande em sua ótica – era uma possível alavanca em sua já procrastinada promoção. A bem da verdade, sua carreira havia estacionado anos antes, e apenas a oportuna insurgência das guerrilhas lhe dera uma sobrevida. Sentia particular prazer em torturas, porque achava que obter confissões “daqueles bastardos” era uma cruzada santa. Sua cruzada.
Cada qual a seu modo buscava jogar melhor as cartas que tinha nas mãos. O coronel possuía força descomunal e paciência. O padre  inteligência e fé. Na cabeça do experimentado militar, apenas uma pecinha não se encaixava naquele complicado xadrez de informações e contra-informações. Fora ele, pessoalmente, que recebera o telefonema indicando onde poderiam prender padre Afonso. Aquela voz com timbre anasalado, mas com sotaque estrangeiro lhe pareceu estranhamente familiar. E tinha a impressão que era de alguém que também detinha muitas informações sobre a guerrilha. Isso, ele teria tempo para averiguar, uma vez que terminasse com o padre.

De volta a Minas, em nossa chácara onde os dois homens, Pavese e João Guimarães continuam a confabular  João pergunta a seu chefe:
— Roberto, só não entendo uma coisa. Se o padre não sabe de quase nada, e poderia ser útil a causa, por que você decidiu entregá-lo?
— Pense comigo —   respondeu Roberto Pavese — nós temos uma causa. E causas precisam de mártires para se consolidar. Quem melhor para o papel de nosso mártir  que um padre?
Após dizer isso levantou os olhos para o céu, como a pedir perdão pelo seu ato.

Em São Paulo, os dias passavam e o complexo jogo de xadrez mental entre os dois homens estava próximo a um desfecho. O final não poderia ser diferente e após muitas tentativas de obter a confissão por meios mais psicológicos, o padre voltou à pequena câmara de tortura. Sua ignorância era tamanha que se confundia com obstinação. Isso irritava seus torturadores e na tarde de uma chuvosa quarta feira, eles exageraram o castigo e o infeliz não resistiu. Seu  corpo deformado foi enterrado numa vala comum, clandestina,  num afastado cemitério nas redondezas da capital paulista. Havia cumprido, involuntariamente, sua nobre missão para a causa  e no futuro, seria um mártir muito valorizado por aqueles que o traíram. A roda da História não cessa seu giro eterno, moendo sonhos e expelindo mitos!





sexta-feira, 1 de junho de 2012

O VELÒRIO DE CARMELITA VAZ




O velório de Carmelita Vaz

Complicado essa coisa de ir a velórios no verão. Nos filmes americanos e europeus os enterros são chiques, as roupas idem, os cemitérios têm gramados impecáveis e o céu fica pendurado no horizonte de um azul puríssimo. Carmelita Vaz morreu numa segunda-feira em pleno dezembro de sol escaldante e chuvas intermitentes no hemisfério de baixo. Pegou-nos a todos de surpresa, aliás, não propriamente de surpresa, uma vez que muitos acreditavam que ela já estava morta há décadas. Mas ninguém estava preparado para as exéquias de alguém tão, digamos, diferente.
Enquanto ajeitava o nó da gravata num colarinho apertado tentei me lembrar da última e da primeira vez que havia visto Carmelita. Sentimentos contraditórios cruzaram minha mente e os fatos, as datas e os acontecimentos se confundiram numa borra mental colorida e perturbadora. Anos separavam os dois eventos e como num filme em fast forward fui revendo nossa história em comum.
Estamos em Ouro Preto e somos meninos, ambos com os joelhos ralados e shorts folgados, correndo atrás de velhos pneus nas ladeiras da cidade. Depois nos vejo trabalhando no Cine Vitória, vendendo balas, quitutes e ganhando alguns tostões que levamos para nossas respectivas casas. Avançando rapidamente no tempo e no quadro de projeção mental nos vejo rapazes, desembarcando no Rio, capital da República para “vencer na vida”. Carmelita, então Sinésio, conseguiu. Eu continuo a tentar, mas estou começando a desconfiar que, em vão. 
A gravata não cede e vou ficando exasperado. Meu neto Francisco, que vai me levar até o cemitério bate de leve na porta, com os nós dos dedos (me enxergo em Francisco e isso me causa desconforto, quero muito mais para ele que o que a vida me entregou) do jeito que eu faço, e pergunta:
— Vô, vamos? Há esta hora já tem muito trânsito, é melhor nos apressarmos.
Faço um sinal de cabeça de leve e volto a pensar em Carmelita. Agora me questiono onde nossos caminhos se separaram e o que causou essa ruptura. Uma mancha escura obscurece meu raciocínio e apenas a memória de sua voz, melodiosa e sempre grave, mesmo depois da “mudança” me assombra. Havia sinais que Sinésio era um pouco diferente, mas nossa amizade era mais profunda que estas coisas banais. Os olhares reprovadores dos outros amigos que foram pouco a pouco se afastando, os cochichos abafados e os risinhos de mofa. Sempre me incomodei mais que ele. Ele, ou ela, simplesmente dava de ombros e dizia: — O destino não se muda. O destino se cumpre!
Apanhei meu chapéu de sobre a cômoda e mesmo com a gravata meio solta, me coloquei em movimento. Em minha idade, sair de casa já não é tão fácil e nem tão agradável. Francisco dirige bem e sua paciência para comigo me emociona sempre. Os outros netos me bajulam ás vezes, pois tenho dinheiro — não há contradição — tenho muito dinheiro, mas a vida me venceu. 
Carmelita estava magnífica num vestido longo e vermelho e seu rosto forte e inesquecível estava impecavelmente maquiado. Ao contrario do que pensei, muitas pessoas estavam presentes em seu velório e até um ou dois políticos de média expressão podiam ser notados entre nós. Fechei meus olhos, isolando-me do mundo e pagando minhas últimas homenagens àquele ou aquela que havia sido meu melhor amigo. O único verdadeiro que tivera em meus noventa anos. O que ousara fazer o que eu sempre sonhei e jamais fui capaz: mudar o desígnio da natureza e refazer sua vida a despeito de tudo. Ao amigo a quem eu renegara, um último e arrependido adeus. Até breve, Carmelita!

quinta-feira, 31 de maio de 2012

VASO RUIM QUEBRA SIM



Vaso ruim quebra sim


Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Jeremias deu de si no topo da cômoda do quarto, transformado num grande vaso. Aquilo era deveras incômodo e ele tentou beliscar-se, para despertar de um sonho – ou pesadelo – mas vasos não têm braços, e aquele em particular era feito de argila e só tinha duas pequenas argolinhas perto do topo. Que maçada!  O interessante é que apesar de não ter olhos propriamente ditos, podia ver tudo em sua volta num ângulo de trezentos e sessenta graus. Começou lentamente, ainda em choque, a perscrutar o ambiente que o cercava. Estranhou inicialmente o tipo de mobília, bastante escassa, feita de madeira rústica e grossa, as paredes de pedras nuas, o teto baixo e o catre, sim, aquilo não era uma cama, feito de madeira e com tiras de couros a fazer as vezes de estrado, sem colchão, lençóis, nada.
Jeremias, apesar de vaso, podia pensar nítidamente, e aterrorizado por sua temporária (ele esperava) forma física, passou a tentar achar soluções para reverter-se ao que era antes. Jurou a si mesmo jamais voltar a reclamar de sua forma humana um tanto quanto rotunda – excessos de cervejas e frituras, associados ás promessas nunca cumpridas de uma dieta e matricular-se numa academia- e estranhamente sentiu falta de seus dedos dos pés. Nem gostava tanto assim deles, tinha pés chatos e o dedão do pé direito na realidade tinha uma unha eternamente encravada, mas decidiu que preferia mil vezes suas unhas manchadas, sua papada protuberante, sua pança deselegante, seus joelhos tortos que ser um simétrico vaso de barro!
Que me aconteceu? – pensou. Não tinha idéia e nem recordações da noite anterior, de como fora parar ali, às vezes bebia um pouco demais da conta, mas não era o caso da noite anterior. Lembrava-se perfeitamente ter se recolhido a seu quarto mais cedo que de costume, tinha uma leve indisposição estomacal, rodízio de sexta-feira sempre o fazia abusar um pouco das carnes mais gordas, e até havia cancelado uma festinha de aniversário de criança no prédio, ao pensar nos gordurentos salgadinhos.
Fazendo uso de suas recém-adquiridas habilidades de enxergar em volta, percebeu não estar no habitual sétimo andar de seu apartamento, onde vivia modestamente com sua mãe viúva e o gato Max, e sim no nível do chão. Estranhou também o sol forte do lado de fora, pela época do ano, estavam em estação de chuvas, e sol brilhante feito este não via há semanas.
Subitamente ouviu vozes vindas do lado de fora e pensou que a situação seria esclarecida de uma maneira ou de outra. Dois tipos estranhos, vestidos para alguma festa à fantasia ou baile de carnaval, tal qual tribunos romanos, adentraram o quarto e aparentemente não o notaram. Falavam em voz alta, num idioma grosseiro cheio de altas entonações anasaladas, mas estranhamente, Jeremias entendia cada palavra do que diziam! Esta era a segunda maior surpresa do dia, e estava acordado há apenas poucos minutos, nem imaginava ainda o que estava por vir!
Estavam confabulando os dois! Esperavam uma terceira pessoa e tratavam-se de maneira cerimoniosa e íntima ao mesmo tempo. O primeiro, que logo Jeremias percebeu chamar-se Cássio, tentava convencer o outro, Casca, a aderir a um plano qualquer e a palavra “eliminar” – seja qual a língua que falavam – era pronunciada de uma maneira solene e definitiva. Pensou ouvir o nome Cesar e também começou a fazer idéia do que se tratava, pois a única peça que tinha assistido no teatro da escola, há anos e anos atrás, foi justamente “Julio Cesar” de Shakespeare. Na época não a entendeu completamente, apaixonado que estava por Glorinha Madalena, a gordinha (fofinha?) mais sexy de toda a escola, recatada, evangélica e, descobriu-se depois, rodriguianamente devassa. Por Glorinha tinha ido ver a peça e por Glorinha, perdeu boa parte da trama, impregnado de suas madeixas negras, sua nuca redondinha e branquinha bem na fila da frente.
Ok, mas meus problemas imediatos são de maior monta pensou o vaso, digo, Jeremias. Preciso escapar desse pesadelo, será que colocaram algo em minha cerveja?- o pessoal da repartição é dado a essas palhaçadas, mas nem havia bebido tanto assim!
Enquanto pensava com seus ausentes botões, os dois continuavam a confabular e a tramar e um barulho de fora foi a deixa de que havia uma terceira pessoa prestes a adentrar o quarto. De fato, outro tipo atarracado em fantasia, digo, roupas de romano, chegou e após os beijos na face de costume, entreolharam-se e começaram a tramar. Pobre Cesar pensou Jeremias, com a vantagem de saber como terminaria a história e a desvantagem de estar vaso e não poder fazer nada para impedir, preocupação, aliás, que não tinha, sua maior vontade era voltar para ontem e despertar.
De repente, ouve uma garganta raspando, saliva sendo negociada entre o esôfago e a garganta, outra profunda arranhada nasal e záz-traz: o maldito Casca acaba de cuspir nele! Dentro dele! Era isso então, ele não era um vaso, mas sim um tipo de escarradeira, nojento demais! Se tivesse estômago, teria vomitado ali mesmo, mas percebeu que sendo vaso e, portanto, não tendo entranhas, podia ter suas vantagens, afinal. Era oco, mas não totalmente desprovido de sentimentos, quando a segunda cuspida veio sibilante em sua direção, e a pontaria do maldito Cássio era muito pior que a de Casca, um filetinho de saliva ficou pendurado numa de suas bordas. - Meu reino por um cavalo, havia dito Napoleão, minha vida por uma espada e mostro a estes energúmenos em quem vão cuspir, porcos! Uma espada para um vaso? Pouca utilidade, realmente.
Os confabulantes continuavam a falar em sua maneira empoada e enrolada, as palavras iam e vinham dando voltas e volteios, em círculos hesitantes e ele sabia perfeitamente onde estes porcalhões estavam querendo chegar. O que não lhe importava muito, pois agora começava a bater um desespero ao ter ciência de sua situação atual: era um vaso, ou pior, uma escarradeira romana, escondido numa frestinha qualquer do tempo, perdido na história poeirenta tal qual um objeto de cena, pouco importante numa peça de teatro decadente.
As palavras ditas em ritmo cadenciado, mais os círculos que os três conspiradores faziam ao caminhar em volta de um eixo imaginário no quarto, foram dando sono ao nosso Jeremias que, sem perceber, acabou cochilando. Lentamente as palavras foram cedendo e perdendo ritmo e nexo. No sonho do vaso, este se imaginou um herói. Sim, um vaso herói! Com direito a escravos, amantes, uma biga veloz – vermelho Ferrari, quiçá – e todos lhe saudando à passagem: Hail Cesar Jeremias! Sonhos são sonhos, oras. De alguma maneira ele conseguia frustar a tentativa de assassinato do grande imperador, trocando a adaga de Brutus por uma dessas de cenário de filmes, sem cortes. Os conspiradores eram presos, julgados e jogados aos leões na Arena. O vaso, coberto de glórias, limpo e jamais escarrado novamente, alçado à condição de nobre, havia mudado o curso da historia!
Mas o destino não quis assim! Cruel destino que assombra e atrapalha trajetórias humanas, cheias de vontades egos e orgulhos, quem dirá de um simples vasinho/escarradeira de barro, sem grife. Jeremias acordou ainda vaso. Soltou um suspiro profundo, que não foi notado por ninguém, pois os tribunos haviam partido. O sol já se punha lá fora e as sombras da noite aproximavam-se velozmente do pequeno quarto. O silêncio era quase total e inquietante. Quase, porque se podia ouvir o zunido de cigarras do lado de fora, em seu incessante lamento cadenciado. A noite caiu por completo. Jeremias ouviu passos apressados. Algum desastrado havia esquecido sua espada sobre a cômoda, justamente atrás de Jeremias. Uma tocha adentrou o quarto, equilibrando-se precariamente numa mão grossa, e tão célere quanto entrou, caiu ao chão. A mão tateou a cômoda e esbarrou em Jeremias, o pobre, que desequilibrado, estatelou-se no chão duro, bem ao lado da tocha, partindo-se em mil pedaços.


quarta-feira, 30 de maio de 2012

QUIRALIDADE




Quiralidade*

Pequena alma terna flutuante
Hóspede e companheira de meu corpo,
Vais descer aos lugares pálidos duros nus
Onde deverás renunciar aos jogos de outrora....
                                                                          P. Élio Adriano, Imp.

Então é assim! Luzes cintilantes, piscando intermitentemente. O momento final, os clarões, o túnel estreito, o aperto no peito. A sensação de ir escorregando devagar de costas, o frio na barriga. Muitas imagens sobrepostas, um neon louco de visões. Nada de som, um filme mudo e colorido. E correndo velozmente para trás! Retrocedendo no tempo, rostos, lugares, num frenesi doido. Aqui e ali uma lembrança mais marcante. Mas espera! Quem são essas pessoas? São estranhos e ao mesmo tempo, parecem familiares. Fragmentos que escapam, pedaços desconexos de um quebra-cabeças.
A montanha russa invertida continua cada vez mais rápida. Pode ver as pessoas sorrindo ou sérias, algumas circunspectas, sons tímidos chegam fora de sincronia, atrasados como numa transmissão de televisão defeituosa, um satélite antigo.
Os olhos semicerrados efetuam movimentos circulares rapidíssimos, como a antecipar avidamente o próximo rosto, o odor seguinte, sim, agora as lembranças vêm em cascatas e com cores, cheiros e sons. Difícil parar aquela sensação de queda no abismo. Nivelar os pensamentos, turbilhões de sensações sobrepostas, contraditórias, em golfadas. Apesar da velocidade crescente das memórias que o impedem de raciocinar com clareza, tem uma certeza: está morrendo e este é o seu derradeiro momento. Exatamente como diziam os antigos, a sensação de levitar, de deixar o corpo suspenso no espaço, sem forma física, desprender-se da matéria, na hesitação natural da partida.

A boca seca, as dores no corpo, a letargia. Argh! Abriu devagar os olhos, teve vontade de beliscar-se. Sentiu júbilo por saber que havia sido um pesadelo, um sonho péssimo, mas apenas um sonho, afinal. Decidiu não falar sobre isso a ninguém, nem mesmo a esposa. A sensação quase-física de um sonho pesado, mais do que um pesadelo comum o atormentou o dia todo. Passou a ler bastante sobre o assunto, consultou amigos espíritas, pesquisou na biblioteca pública. Percebeu que a experiência que vivera, era parecida com a narrada por aquelas pessoas que passam milimetricamente próximas da morte e são resgatadas num último segundo. O que mais o atormentava, no entanto, era o despropósito da situação: estava saudável, em boa forma física, longe de sentir sua vida ameaçada. Por via das dúvidas foi procurar um clínico geral e submeteu-se a uma bateria completa de exames. Resultados normais, recomendação apenas para que cortasse alguns excessos alimentares.


Os anos passaram rápidos e ele parou de pensar no assunto, na “experiência” como se referia ao sonho. Com o tempo confidenciou a algumas pessoas suas sensações, e além das previsíveis gozações, todos o tranqüilizaram a respeito. Pouca coisa, aliás, era capaz de assustar Hans, cuja história de vida e superações era citada por aqueles que o conheciam como exemplo a ser seguido. Filho de família de classe média estudou com muito sacrifício para poder ascender no mercado profissional. Perdeu os pais, que então descobriu serem adotivos, num acidente de avião, e isso o tornou uma pessoa ainda mais reclusa. Pouco conhecia de suas origens, nada sobre seus pais biológicos. Sabia que havia nascido no distante Brasil, país pelo qual nutria certa simpatia, mas que lhe causava medo também. Algo havia acontecido ali, algum evento do qual não era capaz de recordar, que o traumatizava. Mesmo assim, conhecia algumas coisas do país, poucas na verdade, algo relacionado à música, ao futebol.
Criado na Suíça, na região de Genebra, pensava às vezes em viajar para a America do Sul e pesquisar suas raízes primeiras, mas acabava desistindo sempre. Mariela, a bela esposa o incentivava a isso, sabendo que Hans ás vezes singrava sem rumo, tal qual nave perdida em meio à calmaria. Mulher inteligente e perspicaz, dizia ao marido: “ todos temos direito de conhecer nossa história pessoal, é algo que nos pertence.”Este pensava no assunto, mas acabava sempre protelando qualquer atitude a respeito.

Os dias daquela primavera de 1994 caminhavam esplendorosos quanto ao clima e aos negócios para Hans. Para coroar a fase tão boa, Mariela anunciou a tão sonhada gravidez em meados de abril! Ambos levitavam, mal podiam conter a justa euforia da paternidade. Foi como um sinal, prestes a ser pai, Hans decidiu conhecer mais sobre as próprias origens. Embarcaram para o Rio de Janeiro numa sexta feira, no finalzinho de abril, com esperanças e alguns vagos números de telefones.
Os contatos preliminares foram bons e o Rio era mesmo uma cidade incrível, com sua enorme quantidade de restaurantes, a beleza da natureza e o calor dos cariocas. Hans passou a sentir-se muito próximo de si mesmo, e Mariela aprovava o seu novo e “light” marido. Estavam hospedados num belo e confortável hotel em Copacabana e no sábado à noite, exageraram um pouco na bebida, caipirinha é bom e vai descendo fácil. Mesmo pelos padrões europeus, ele bebeu um pouquinho além da conta.

***
Aquele homem tem um destino, segue uma estrela, qual Rei Mago deslocado em tempo e lugar. Dono de enorme sucesso, fortuna e carisma, o que fez até agora num esporte de incríveis exigências físicas e mentais, nada vale. Quer ir além, quebrar todos os recordes, superar-se a qualquer custo. Uma luta inglória e incessante em busca de algo elusivo e reticente.
Não dormiu bem naquela noite, supersticioso ao extremo, os presságios foram claros. Como da outra vez, há muitos anos atrás, quando sofreu um gravíssimo acidente e ficou entre a vida e a morte, chegando mesmo a receber a extrema-unçao num hospital famoso de uma cidade qualquer onde o circo do esporte em que é ao mesmo tempo Rei e gladiador se exibia. Sabia que havia chegado ao perigosíssimo limiar entre a vida e a morte pela visão que teve. As luzes cintilantes, o túnel estreito, a imagem fora de foco, paisagens e rostos familiares, a regressão avassaladora o sugava para um abismo negro, chegando mesmo a ver seu corpo inerte na cama. Então algo ocorrera, e o processo todo parou: mergulhou subitamente num ponto qualquer de si mesmo, onde era incapaz de sair por suas próprias forças. Após o coma, a recuperação física foi espetacularmente rápida, deixando os médicos e os milhões de fãs em êxtase pelo mundo afora. Já a recuperação psíquica, esta ele não estava certo de que a havia concluído.
Acordava por vezes, em uma piscina de suor, com presságios, visões e muito medo. Algo o apertava no peito, por dentro, sufocando-o ao limite do desespero. Procurou ajuda espiritual, mas foi em vão. Não conseguia se abrir com ninguém, nem mesmo uma irmã particularmente querida e para quem não guardava segredos. Estava liderando uma equipe nova, com muitas expectativas, mas os resultados teimavam em decepcionar. Discutiu asperamente com seus engenheiros e técnicos à respeito do melhor acerto para seu carro para aquela pista, mas parecia falar uma linguagem desconhecida pelos demais. Queria a perfeição, ou melhor, exigia de si, para si, e dos outros um padrão sobre-humano que poucos conseguiam vislumbrar.
Místico, foi procurar uma cigana há alguns dias e ela disse algo que o intrigou demais: “Procure conhecer a sua outra metade. Espiritualmente vocês dois são um e a separação é antinatural. Busque saber mais sobre suas origens”. Aflito foi buscar respostas, mas a desconversa e os olhares trocados haviam piorado seu estado de espírito. Voltava à antiga sensação da infância e da adolescência, quando se sentia incompleto, como se faltasse algo em si. Mergulhou de cabeça no esporte para unificar seu espírito, corpo e desejo num vetor único, e havia funcionado. O desconforto havia cessado e a impressão de que lhe faltava uma metade sumira quase por completo. A visita à cigana fora uma má idéia, mas não lhe saía da cabeça.
Havia feito um bom treino e estava confiante para a corrida. Benzeu-se e entrou no carro, ignorando os aplausos dos fanáticos torcedores italianos quando alinhou no grid de largada. Adorava os fãs, mas no seu Brasil sentia-se mais aconchegado, em união com a massa de uma maneira mística e intensa. Olhou em volta e a sensação estranha voltou. Por um átimo de segundo sentiu estar fora de lugar, como se aquele não fosse o seu habitat e aquilo fosse completamente novo. Um leve enjôo, como se houvesse bebido além da conta, absurdo, claro, em vésperas de corrida. Precisava tirar umas férias e a bela loira com quem estava saindo ultimamente certamente era uma boa razão para isso. Concentrou-se na corrida e no que iria fazer nas próximas duas horas de sua vida.
O barulho infernal de milhares de cavalos de potência a rugir, presos por uma embreagem e soltos numa explosão de energia, barulho, cores e o estrondo da platéia. Chegou ponteando na primeira curva e as coisas iam bem. Livrou alguma vantagem nas primeiras voltas até a intervenção de um carro madrinha, devido a um acidente entre alguns outros rivais, muito, muito atrás de si. Tudo certo agora, o carro madrinha apaga as luzes do teto, vai entrar nos boxes, é hora de acelerar fundo e recuperar aquela vantagem enorme. A primeira curva vem chegando rápido e algo não está bem. Uma peça, das milhares que compõem a suspensão se rompe e o carro viajando a mais de trezentos quilômetros por hora, fica desgovernado, corcoveia e  choca-se violentamente contra o guard rail! O som de metais se rompendo, se fundindo, a tremenda desaceleração demora a ser assimilado por nosso cérebro.

As luzes cintilantes, o túnel estreito, a confusão de sons, cores e vozes misturadas, o deja-vu. Ao lado de uma pista de corridas, visto ao vivo e em tempo real por milhões de telespectadores ao redor do mundo, jaz o corpo quase inerte de um homem. Seus pés estão ligeiramente curvos e paramédicos ocultam seu rosto ferido das câmeras intrusas dos papparazi. Um ídolo agoniza em seus últimos momentos.
Há muitos quilômetros dali, num quarto de hotel qualquer em Copacabana, outro homem enfrenta a mesma viagem pelo túnel estreito. O filme ao contrario está rápido e não dá sinais de que será interrompido antes do final, desta vez As imagens vão se sucedendo em cascata e o homem, cada vez mais jovem, se torna um garoto franzino. Agora, algumas cenas na seqüência, o menino é um garotinho chorando ao ser retirado dos braços de uma jovem mãe, transforma-se em frações de segundos num bebê e logo num feto. O útero é escuro, confortável e úmido, mas ele não está sozinho. Há ali dentro, outro de si, disputando espaço, em harmonia, em comunhão. Um clarão de entendimento cruza as duas mentes, separadas por um oceano e uma vida.
No quarto do hotel em Copacabana, o homem abre os olhos, a boca seca, o sonho interrompido mais uma vez. Ao lado da pista, sendo colocado numa maca, o feto sorri e segura as mãos do irmão delicadamente. Solta-a. Liberta-se da matéria e suspenso, invisível, pode ver a magnitude da cena abaixo: pessoas acenando suas cabeças incrédulas com aquilo que realmente está acontecendo. Em Copacabana, o homem, ainda sonolento e confuso chama por sua Mariela, que está com os olhos grudados na tela da televisão, desconfortável a acompanhar a imolação daquele desconhecido. Do lado de fora, nas praias, nos bares, nos lares, nas ruas, um gigantesco nó se forma numa garganta coletiva. Mariela não entende bem a dimensão daquela perda, mas sente um vácuo dentro de si.
Desprende-se um pouco da energia do universo. Um ciclo está a se cumprir e outro prestes a iniciar-se.

* Quiralidade(do grego, χειρ, kheir: "mão") é uma propriedade de assimetria importante em vários ramos da ciência. propriedade que distingue uma configuração espacial de átomos da imagem especular desta configuração.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Metamorfose




Foi como um súbito despertar: naquele exato momento,  de forma abrupta e repentina, ela se deu conta de que uma mudança radical havia ocorrido entre eles. Na natureza do relacionamento, na forma como se viam mutuamente. Tudo era muito recente, e a paixão avassaladora não concedia espaço para que enxergassem defeitos um no outro.  O engraçado foi que ela estava sentada, quando aconteceu e só ao levantar-se, a idéia bateu: ele me ama! Assustadora e bela, perigosa e sedutora idéia que teimava em instalar-se em seu subconsciente. Sim, foi quando ele lhe disse que achava seu nariz (o dela) grande. E emendou, estragando mais ainda: mas eu tenho tesão em mulheres com narizes grandes, tenho até uma teoria....
Ela ficou puta da vida, inicialmente. “Como ousa?” —  nariguda o escambau.... Mas depois, mais calma e com quase uma caixa de chocolate fazendo às vezes de analgésico espiritual, percebeu que dali para frente, as coisas não seriam mais as mesmas. Paixão é paixão. Mas acaba. Ou vira amor....e aí é que começa a valer!