segunda-feira, 28 de maio de 2012

Cativa



Ela estava amarrada. As cordas  feriam seus braços e pernas, tudo doía, principalmente seu ego. O quarto era escuro, mas seus olhos já haviam se acostumado com a penumbra e assim, podia ver ao seu redor. Olhares  de medo, assustada e acuada. Sempre que seu captor se aproximava, podia sentir sua presença, por menos ruído que ele fizesse. Algo sinistro vibrava em sua espinha, e depois, havia aquele nauseante cheiro agridoce que costuma impregnar pessoas más. Ao forçar as cordas que prendiam os pulsos, feriu-se e sangrou. Os soluços secos e as lágrimas idem, chamaram a atenção de seu  algoz, que contrariado, aproximou-se com um pano úmido. Pôde então, pela primeira vez olhar seus olhos, por detrás da máscara. Eram olhos doces, quase ternos. Isso inquietou seu coração cativo e lhe trouxe ainda mais dissabores. O conflito era pior que a dilaceração física. Lembrou-se, então, da tal Síndrome de Estocolmo, e achou que estava enlouquecendo. Mas o pior estava por vir....O cheiro agridoce começou a ser tão necessário em sua mísera rotina quanto o ar que respirava. E o pior....

Devaneios pós modernos


Era como se fosse um sonho, mas era mais. Venho caminhando lentamente e com a cabeça baixa. A minha frente, me esperando, o mais severo tribunal de todos os que já enfrentei. Composto de meus filhos, eles são os jurados e os juízes. Vejo também as difusas silhuetas de seus futuros filhos, meus netos que jamais conhecerei e ainda menos nitidamente os filhos destes, minha descendência. Me dou conta do peso e da responsabilidade que negligenciei. A mochila abstrata onde carrego minhas culpas (acessório de minha vã consciência) é colocada sobre uma mesa. Imaginária e pesada. Paradoxalmente, ao deixá-la cair, não sinto o alívio do peso. Sinto, ao contrário, a severidade dos muitos olhares cravados em mim. Penso, tento, quero refazer meus passos incertos. Sei que se tivesse uma chance, pisaria mas firme e andaria com menos hesitação. Fui presa fácil das tentações, dos vícios, das armadilhas que nos aguardam a cada curva de estrada. Respiro fundo e o ar vem quente, queimando levemente minhas narinas, envenenando meus pulmões. Nivelo meu olhar, mas rapidamente recuo ante a multidão de olhos acusando-me surdamente. Não há sons e nem palavras, são desnecessárias. Mentalmente procuro achar uma saída, mas meu corpo está preso ao chão. Mais silhuetas vagas e difusas vão se aproximando silenciosamente se juntando às primeiras. Gerações de mim se sucedem cada qual tentando aliviar-me do peso de ser quem sou ou fui. Eu me sinto cada vez mais pesado...

terça-feira, 22 de maio de 2012

Coisa antiga. Escrita em Londres, por volta de 1982.


Caminho sozinho na noite fria,
volto para casa.
O vento furioso me alcança,
me rodeia, me fustiga, me fere,
mas não me atinge!

Sou insensível a sensações.
Breves lapsos além da realidade,
são meu tormento.
Mergulho num mar de mim mesmo,
em vão...

Procuro encontrar aquela elusiva
faceta do meu eu,
que sei ser justa e real.
Deparo-me com imagens sobrepostas,
confusas, temerosas.

Vagueio em círculos constantemente.
Cores berrantes, surreais me
cobrem as retinas...
Tento desesperadamente nivelar
meus pensamentos.

Gostaria de gritar em desespero
para que o infinito
me  ouvisse e me contestasse.
Mudo, permaneço em protesto.

Em partículas de tempo,
me decomponho em mínimas
células.
Difusas, independentes, contraditórias.
Sou milhões de átomos nervosos
em atrito, em comunhão.

Réstias de luz se filtram pelos
espaços, criando sombras.
Projetam-se ângulos no infinito
de proporções misteriosas.

Desdobram-se as projeções de
imagens de mim.
Bombardeio todos os cantos
com reflexos consequentes.

                    Deliro,
Deliro mais e mais.
Já não sou matéria.

Parti e me torno ilusão,
Sensação, saudade.

sábado, 17 de março de 2012

terça-feira, 2 de junho de 2009


Penso nesse momento em tantas coisas, e queria não pensar em nada. Preciso, preciso aprender a meditar, a soltar minha mente a vagar pelos enormes espaços vazios que se deparam a minha volta.
O acidente com o avião da Air France, pela sua violência, seu despropósito, nos traz de volta um pouco da humanidade perdida em nossos endurecidos corações massacrados diuturnamente por notícias de tragédias, guerras, gripes, massacres, atropelamentos e tanta impunidade.
Nesses momentos de dor e angústia coletivas, sentimos um certo elo a unir a humanidade, uma busca interna e íntima de um sentido ancestral pelo significado da vida, da existência, que seja para além das trivialidades da sobrevivência e das supérfluas necessidades materiais cotidianas.
Desesperadamente olho para cima tentando nivelar meus pensamentos e enxergar além. Difícil, quase impossível. Desisto de entender e me rendo a um mistério maior, uma evidência da impotência sentida e reafirmada a cada dia. Pequeno, minúsculo, desisto, entrego os pontos e decido parar de tentar ser divino, como me foi ensinado desde pequeno. "A imagem e semelhança de Deus...." são palavras bonitas, mas inócuas.
Vamos em frente. A caminhada é longa, mesmo que não pareça. A dor que nos aflige vai passar e um novo dia vai nascer. Vamos carregando algumas coisas e nos desfazendo de outras, no alforje imaginário de nossa viagem na linha do tempo.
Eu queria falar de corridas, mas agora não dá. Que os Max-nazistas-sadomasoquistas e os Bernie-avarentos da vida me perdoem, mas hoje não lhes darei ibope. Quem sabe mais tarde, mas no momento, meus pensamentos estão em algum ponto perdido do oceano Atlântico, assim como minhas orações.